Nós contadores somos todos hipócritas

Fernanda Rocha
5 min readJan 14, 2019

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Sim, hipócritas.

E já explico o porquê.

Adoramos falar mal do coleguinha que não faz escrituração contábil de empresas do Simples Nacional, julgamos o preço baratinho que ele pratica no mercado e criticamos as estratégias duvidosas que ele usa para captar clientes.

Para isso, nos embasamos no Código de Ética, ou na Resolução do CFC que obriga empresas a manterem escrituração contábil regular, independente do porte.

Antes de pensarmos em normas e resoluções em que nos respaldamos para distribuir o nosso falso moralismo por aí, convido vocês a lembrarem o que nos trouxe até aqui: a Ciência Contábil, na sua essência.

Quero falar disso e mostrar por que somos todos hipócritas (me incluo).

Bem, mas antes de você cuspir chamas de fogo contra mim e o meu título extremamente polêmico, deixe eu me apresentar.

Eu sou contadora, trabalhei por 7 anos em um escritório de contabilidade, de estagiária a gerente do departamento contábil, até me arriscar na dura vida de empreender. Por 6 anos estive à frente da Fatto Contabilidade.

Nesses treze anos de carreira contábil, eu posso afirmar que Contabilidade, mesmo, eu fiz por pouco mais de 1 ano, pois demorei muito tempo para entender o que de fato é Contabilidade.

Pois bem. Você, contador ou contadora que adora apontar o dedo na cara do outro, me responda:

VOCÊ REALMENTE FAZ CONTABILIDADE?

E para você entender exatamente o que eu quero dizer com essa pergunta, me responda outra:

O QUE VOCÊ FAZ COM AS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS DO SEU CLIENTE DEPOIS QUE FICAM PRONTAS?

A partir dessa resposta, a gente consegue distinguir quem realmente faz (uma minoria estarrecedora) dos que fingem que faz (a maioria esmagadora) Contabilidade no Brasil.

Acho que vale esclarecer (ou te relembrar) alguns pontos:

→ Contabilidade não é sobre escrituração contábil.

→ Não é sobre entregar SPED CONTÁBIL e ECF no meio do ano.

→ Não é sobre lançar somente nota fiscal de entrada e de saída, porque é só isso que o cliente te enviou.

→ Não é sobre lançar um extrato bancário e contabilizar receitas e despesas não fiscais em “contas a regularizar” ou criar um movimento de caixa fake para justificar.

→ Não é sobre enviar um balanço assinado para o cliente mandar para o gerente do banco.

→ Não é sobre conciliar contas de fornecedores, clientes, salários, e depois enviar para o cliente uma relação de pendências no final do mês.

→ Não é sobre apuração do Lucro Real.

Eu sinceramente não sei qual foi o momento exato em que nós contadores perdemos o fim da meada.

Não sei o que aconteceu quando aceitamos, de forma acachapante e incontestável, que a Ciência Contábil seria reduzida a uma mera obrigação acessória, utilizada apenas para cumprir formalidades fiscais.

Por que você nunca apresentou (ou apresentou para uma minoria) os indicadores contábeis, como a NCG, o EBITIDA, o EVA, ou até a mais simples LUCRATIVIDADE para seus clientes?

O que aconteceu com a Contabilidade usada como ciência para tomada de decisão?

Eu sei o que você vai dizer. Vai dizer que

A CULPA É DA SONEGAÇÃO.

A CULPA É DO CLIENTE QUE NÃO VALORIZA.

A CULPA É DO CLIENTE QUE NÃO MANDA INFORMAÇÃO.

A CULPA É DO CLIENTE QUE NÃO TEM NENHUM CONTROLE.

Quantas escritas contábeis você faz aí no seu escritório, que de fato refletem a realidade da empresa? Que de fato podem ser usadas para alguma tomada de decisão?

Nenhuma ou quase nada, né? Eu sei como é. Também me ensinaram que a Contabilidade deve ser feita para atender às necessidades do fisco.

Meu pai me ensinou grande parte do que eu aprendi no departamento contábil. Ele me dizia:

“Fernanda, toda empresa deve ser tratada como se Lucro Real fosse. Escrituração contábil completa, independente do seu porte ou tipo de tributação”.

“Fernanda, se o cliente não enviar o documento, você precisa cobrar, sempre”.

“Fernanda, na dúvida, não lance um documento com origem duvidosa”.

Esses e outros ensinamentos me trouxeram até aqui e me ajudaram a valorizar a preciosidade de uma informação contábil completa.

Até eu entender que, na verdade, essas premissas me levaram a fazer uma Contabilidade longe de ser completa.

Se o cliente sonegava, a contabilidade jamais refletia sua realidade. Tudo que era lançado era puro lixo, uma baboseira contábil cheia de remendos.

Se o cliente enviava um comprovante de despesa válido, do ponto de vista financeiro, mas que não era uma nota fiscal, isso era devolvido para o cliente e lançado em uma conta a regularizar. O lançamento ficava ali nessa conta para o resto da vida.

E assim eu segui a maior parte da minha vida profissional, escrevendo um livro que jamais seria lido, um apanhando de lixo impresso ou eletrônico sem nenhuma coerência ou concordância. Apenas lixo.

Essa, meus caros, é a nossa Contabilidade reduzida a fins fiscais. Aquela que seu cliente sempre disse que não serve pra nada.

Mas a verdade que ninguém te contou, meu amigo contador, é que Contabilidade transcende qualquer entendimento sobre sonegação, despesas dedutíveis, receitas tributáveis, ou outros conceitos aberratórios que o Estado foi nos enfiando goela abaixo.

Com o tempo eu fui aprendendo que a Contabilidade usada para fins gerenciais era infinitamente mais poderosa, um tesouro do mais precioso valor, a arma mais potente capaz de erguer impérios.

“Mas aí eu terei que fazer duas contabilidades? Uma fiscal e outra gerencial? O cliente mal está disposto a pagar por uma”, você me diz. E é uma dor genuína. Mas eu te respondo de volta:

Ninguém ama aquilo que não conhece.

Você mesmo, contador, não conhece a Contabilidade e do que ela é capaz de fazer por uma empresa. Por isso te convido a fazer um teste.

Faça com um cliente. Faça duas contabilidades sim, se for preciso. É mais fácil do que você imagina.

E em posse da escrituração contábil verdadeiramente completa e refletindo a realidade da empresa, vá até o seu cliente e mostre para ele o gráfico de capital de giro versus necessidade de capital de giro da empresa. Fique calado e observe a reação dele. Depois me conta.

E para finalizar, te convido a julgar menos o coleguinha, e olhar para o seu próprio umbigo, fazer uma profunda reflexão sobre o seu trabalho e em seguida responder, do fundo do seu coração, se você realmente tem feito Contabilidade.

Se você respondeu que NÃO, de quem é a culpa?

Até quando você vai continuar sendo despachante do Governo?

Beijos e até a próxima.

PS: Cansou de sofrer sozinho nessa árdua vida de contador? Junte-se ao Movimento Contabilidade Sem Chatice e faça parte da geração de contadores generosos que está mudando a forma como a Contabilidade é vista no Brasil. contabilidadesemchatice.com.br

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Fernanda Rocha
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Written by Fernanda Rocha

Founder e CEO da Nucont, líder do Movimento Contabilidade Sem Chatice, firme na missão de propagar a Contabilidade Consultiva por todo o Brasil

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