As 7 tendências do mercado contábil para os anos de 2021 a 2031

Como se preparar para tornar o seu escritório contábil competitivo para esta década

Fernanda Rocha
12 min readJan 21, 2021

Introdução

O universo contábil faz parte do meu DNA. Meu pai é contador e empresário desde quando me entendo por gente. Ele tem mais tempo de carreira do que eu de vida... então segui nesse mercado por influência dele.

Iniciei minha carreira contábil em 2006 e nesses quase 15 anos tendo contato direto com a profissão, sendo que 8 deles foi empreendendo na área, estudei e observei a fundo o comportamento do nosso mercado.

Sendo assim, eu gostaria de compartilhar com você algumas percepções minhas sobre o mercado contábil para esta década e em que as mudanças nas demais áreas podem influenciar na nossa.

  1. Simplificação tributária e diminuição dos custos com burocracia
  2. Surgimento de escritórios mais especialistas
  3. Associações, fusões e aquisições mais frequentes
  4. Fim definitivo da barreira geográfica
  5. Softwares contábeis perdendo mercado
  6. Novo modelo de negócio contábil
  7. Mais valorização da Contabilidade como Ciência

Simplificação tributária e diminuição dos custos com burocracia

Não é novidade para ninguém que o Brasil mantém um dos piores sistemas tributários do mundo. Contudo, é imprescindível que este assunto seja discutido e resolvido, dado os desafios que teremos nesta década para recuperar o fôlego da nossa economia.

Não acredito que, na prática, conseguiremos ver os efeitos reais de uma reforma tributária ainda nesta primeira metade da década, no entanto, vejo com otimismo a participação mais efetiva da nossa classe frente a mudanças que, de fato, trarão simplicidade para a rotina das empresas.

O impacto dessa simplificação para o mercado contábil é clara: menos horas gastas com obrigações acessórias. Isso naturalmente forçará os contadores a cobrarem honorários cada vez mais baratos para cumprirem especificamente esta função.

Vejo que a tendência, tendo como exemplo países como os EUA, Canadá, Austrália e alguns países europeus, é que o próprio setor financeiro ou de backoffice da empresa cuide dos assuntos fiscais e trabalhistas, não demandando, portanto, de um escritório terceirizado para esse fim.

Surgimento de escritórios mais especialistas

Antes do que eu citei no item anterior acontecer de fato, dada a complexidade do nosso sistema tributário e trabalhista, os escritórios de contabilidade ainda serão muito demandados para cuidar dessas funções pelos próximos 5 anos, porém de forma mais especialista, e não generalista, como é hoje.

Isso significa que teremos cada vez mais negócios contábeis nichados em um segmento específico de mercado, com completo domínio sobre a legislação e as particularidades deste setor.

Isso fará com que o escritório contábil seja uma verdadeira escola de especialistas tributários que, eventualmente, serão assediados pelas empresas do segmento em questão e uma grande parcela desses profissionais acabarão migrando do escritório para a empresa.

Associações, fusões e aquisições mais frequentes

Segundo dados do sistema CFC, atualmente existem quase 75 mil organizações contábeis registradas no Brasil. Acredito que para esta década este volume vai diminuir.

Se vamos a um centro comercial da capital hoje, temos quase um escritório contábil por andar, todos pequenos e concorrentes entre si. Os contadores de cada negócio mal se falam.

Ao invés disso, enxergo que para os próximos anos teremos um único negócio contábil por região, com vários contadores associados. Assim como nas firmas de advocacia e nas grandes empresas de consultoria e auditoria, teremos subnúcleos especializados em cada assunto: tributário, trabalhista, estratégico, consultivo, financeiro, controladoria, e por aí vai.

Mas para chegarmos nesse modelo, vejo que os pequenos escritórios de contabilidade que tem sinergia entre si, seja em nicho de mercado, seja em princípios e valores, acabarão se fundindo e se tornando uma única organização.

Portanto, teremos menos escritórios contábeis atendendo a carteiras pequenas de 10 a 20 clientes, e mais escritórios estruturados, com uma equipe maior e mais capacitada, atendendo a carteiras com mais de 100 empresas.

Esse movimento de aquisição, fusão ou incorporação é uma tendência não só para os escritórios contábeis, como também para todas as empresas que fazem parte desse ecossistema.

Já temos várias startups de tecnologia que adquiriram nos últimos anos empresas menores para explorarem novas frentes de atuação (como a ContaAzul que adquiriu a Wabbi ou a Nibo que comprou a MasterDoc).

Quanto mais existirem empresas especialistas em um tipo de solução para o mercado, mais veremos este processo de maiores comprarem ou incorporarem menores.

Fim definitivo da barreira geográfica

Nas últimas décadas, um pequeno escritório contábil só podia vislumbrar em atender empresas do seu bairro e região, bem como contratar apenas profissionais locais.

Essa realidade, no entanto, tende a se transformar rápida e definitivamente, sobretudo com a adoção do home office.

No início desse ano, uma quantidade impressionante de empresas assumiram de forma permanente a adoção do trabalho remoto e isso permite uma flexibilidade muito maior na contratação de profissionais da área, além de ofertas de emprego que poderão ser mais atraentes em benefícios.

2020 foi o ano que provou não ser obrigatório fazer uma reunião presencial para discutir sobre algum assunto importante com o cliente, e isso deu aos contadores mais autonomia para prospectar e manter clientes em regiões mais distantes.

Entendo que esse tópico, inclusive, corrobora com o tópico anterior, quando teremos escritórios contábeis de diferentes regiões se unindo e se tornando negócios únicos, com atuação menos local e mais global.

Softwares contábeis perdendo mercado

Se por um lado teremos cada vez mais aquisições e fusões entre as empresas do setor, por outro eu vejo que os softwares contábeis estarão em um oceano ainda mais vermelho.

Com a simplificação das rotinas tributárias e trabalhistas, as grandes empresas que hoje dominam o mercado de softwares contábeis estarão sujeitas ao aparecimento de concorrentes com soluções mais diferenciadas, inovadoras e com preços menores.

A estas grandes empresas caberá a busca incessante por diferenciação, e por isso mesmo será cada vez mais atraentes para elas se manterem em nuvem e deixarem seus APIs abertos para garantirem uma quantidade máxima de integração com outros softwares que exercem funções essenciais para a rotina do escritório, como gestores de tarefas, CRMs, gestores financeiros, etc.

Se hoje um escritório contábil precisa lidar com uma “colcha de retalhos” de infinitos softwares que fazem diversas coisas diferentes* e não conversam entre si, para esta década será imprescindível que estes mesmos softwares se desdobrem para manter uma integração coesa que facilite a vida do usuário.

*Estima-se que para um escritório contábil que atende até 60 clientes tenha em média 10 diferentes softwares em sua operação

Novo modelo de negócio contábil

Bem, esse assunto é tão complexo que vou dividi-lo em tópicos para tentar passar para você um pouco da minha visão. E ainda assim, é bem provável que eu vá trata-lo em diversas outras ocasiões, artigos, vídeos, enfim.

Antes, eu quero fazer uma pequena contextualização.

Você provavelmente deve se lembrar daquele conceito de “Uberização” que foi amplamente discutido quando o Uber trouxe uma nova relação entre motoristas e passageiros, abalando para sempre o tradicional mercado dos taxistas.

Veja, uma pessoa aleatória que tinha um carro qualquer passou a dar uma espécie de “carona remunerada” para outra pessoa que precisava se locomover e que não estava disposta a pagar fortunas para um taxista mal educado.

Esse “motorista aleatório” podia ser qualquer profissional: de auxiliar de serviços gerais a engenheiro.

Mas me responde o seguinte: o Uber substituiu o taxi?

Em grande parte sim, mas o taxi ainda existe e é utilizado por um certo público, agora muito mais restrito.

Outra pergunta: Os taxistas viraram Uber?

Sabemos que não, a maioria deles continuam sendo taxistas, embora alguns passaram a aderir aos aplicativos de mobilidade.

Então podemos concluir que o objetivo do Uber nunca foi transformar taxistas em motoristas de Uber, e sim criar uma nova categoria de profissionais que estavam dispostos a fazer viagens mais baratas e ganhar dinheiro com o volume de corridas diárias.

Ok, agora segura essa informação que vou usá-la daqui a pouco.

Vamos para os tópicos.

  1. O contador despachante e o contador consultor

Eu, o Nucont e assim como várias outras empresas e influencers do mercado vivemos esfregando na sua face todo santo dia que o seu futuro é a Contabilidade Consultiva, certo?

Só lembrando que o conceito de Contabilidade Consultiva que trazemos aqui é o uso da Contabilidade como CIÊNCIA, aplicada para conduzir as empresas rumo à prosperidade.

Mas para aplicar a Contabilidade Consultiva você precisa de uma série de requisitos: tempo, vontade, disposição, persistência, conhecimento em gestão, liderança, soft skills e… estudo, muito estudo. Já viu um cientista que não estuda?

Então você, contador, que já está há alguns ou vários anos no mercado, que está habituado e estruturado para cuidar das obrigações acessórias das empresas, que tem sua carteira fiel de clientes, que está ali com seus funcionários e processos funcionando há anos daquele mesmo jeitinho….

Será, contador, que você está REALMENTE disposto a entrar nesse papo de “contador consultor”?

Talvez não. Talvez você entenda que “cara, isso não é pra mim… obrigado, mas já estou acostumado ao meu serviço aqui”.

Ok, agora voltando pro Uber. Se eles tivessem chegado para os taxistas com uma proposta de “hey, vocês querem ser mais produtivos, fazendo várias corridas por dia e oferecendo alguns serviços diferenciados para os passageiros? Mas para isso vocês terão que seguir essas diretrizes aqui.”

O que os taxistas responderiam? Bem, muitos diriam “não, obrigado, já tenho minha clientela aqui”.

Mas o que o taxista não esperava era que a casa dele ia cair quando um engenheiro, um marceneiro ou um auxiliar de escritório, do dia pra noite, viraria concorrente deles.

Ok, chega de papo de Uber e vamos direto ao ponto.

O que quero dizer com tudo isso é que se você, contador, dono de escritório e cuidador da burocracia, não estiver disposto a virar um consultor, acredite, meu amigo, TEM MUITA GENTE QUERENDO.

Mas ao contrário da relação predatória entre Uber e taxi, isso poder ser algo muito benéfico para você.

2. A relação conflituosa entre contador e consultor

Vamos imaginar uma situação.

Você tem uma carteira de 60 clientes. Eles te pagam um honorário para receberem no final do mês as guias e as declarações que você entrega.

Você não é bobo e já tem percebido, ainda mais com a crise, que esses clientes estão a cada dia pedindo redução de honorários, se tornando inadimplentes e ameaçando deixar seu escritório.

Esses mesmos clientes, diante de um aperto financeiro, buscam e pagam fortunas em soluções externas para mitigar os problemas: contratam consultorias, mentorias, e cursos online que prometem “resolver a gestão da empresa”.

Você é consultado para isso? Claro que não, você é apenas o contador que calcula imposto.

Mas se você fosse cogitado para prestar uma consultoria para esses clientes, você provavelmente não iria, afinal isso não é algo que você está acostumado a fazer.

Atualmente, essa relação que existe entre um consultor contratado pela empresa e um contador é extremamente conflituosa. Por vezes, você nem fica sabendo o nome do consultor, porque ele sequer chega a solicitar alguma informação que venha da contabilidade.

Eu até arrepio quando penso nesse tipo de coisa, porque um consultor que não usa contabilidade para ajudar a empresa na tomada de decisão… meu amigo, esse cara não deveria ser chamado de consultor.

Um consultor não usar a contabilidade para diagnosticar e cuidar da saúde das empresas é tão bizarro quanto um médico não se basear na medicina para prescrever um remédio ou realizar uma cirurgia.

Então a premissa que eu adoto aqui para concluir meu raciocínio é essa:

  • todo consultor deveria ser contador
  • nem todo contador é consultor

Dito isso, vamos para o próximo e último tópico.

3. Contadores trabalhando simbioticamente

Tudo que eu escrevi até agora era para chegar nisso.

Teremos em um futuro próximo contadores contratando outros contadores para prestarem serviços específicos para sua carteira de clientes. Mas isso não acontecerá como uma relação de trabalho.

Será uma relação triangular entre empresa, contador e consultor onde todos saem lucrando.

Sim, eu sei que já existem modelos assim atualmente, mas o que eu quero dizer é que isso não será um caso isolado aqui e ali, mas como uma tendência, uma regra.

Então, resumidamente, será assim:

  • Você, dono de escritório contábil, tem 60 clientes e cuida de suas obrigações acessórias, tributárias e trabalhistas.
  • Você percebeu que precisa entregar um diferencial para esses clientes, caso contrário você irá perdê-los para concorrentes.
  • Porém, você “é um taxista que não quer virar Uber” por infinitos fatores, seja pelo desafio, seja pelo tempo de mercado, seja porque simplesmente “não é sua praia”.
  • Você terá acesso a um “cardápio de contadores consultores” especializados em diversos segmentos, que já possuem uma metodologia clara e bem avaliada de trabalho.
  • Exemplo tosco, mas válido: pense em uma espécie de “Tinder de contadores”, onde a especialidade de cada um vai dar match com o tipo de consultoria que você está buscando (se é de indicadores financeiros, de planejamento estratégico, de KPIs de startups, etc).
  • Você vai bater um papo com esse contador consultor, apresentá-lo ao seu cliente e vocês três irão se relacionar de forma harmoniosa, com o consultor te prestando conta de tudo que ele está fazendo com o seu cliente e você oferecendo todos os dados contábeis de que ele precisa.
  • O valor que seu cliente irá pagar pela consultoria será dividido entre vocês e a plataforma onde você encontrou o seu contador consultor dos sonhos.
  • Pronto. O consultor vai embora para o próximo job, você gera valor para seu cliente, e todos saem felizes.

Então é esta a minha visão para um novo modelo de negócio contábil que vai existir nos próximos anos: a relação simbiótica de contadores trabalhando em uma mesma empresa, onde cada um oferece o que tem de melhor em termos de conhecimento e recursos.

Mais valorização da Contabilidade como Ciência

Acho que nunca se falou tanto em ciência como nesse último ano, por conta da pandemia, vacina, vírus, etc.

E esse assunto acabou gerando discussões acaloradas sobre o que é e o que não é “ciência de verdade”.

Mas um grande aprendizado que eu tirei de tudo isso é que a “ciência de verdade” nunca foi de fácil entendimento e alcance a reles mortais, como eu e você.

O conteúdo de estudos e evidências científicas relevantes sempre foram publicados em revistas ou portais de pouco conhecimento da grande massa e esteve restrito a grupos de pesquisadores que “falam difícil e não se entendem entre si”.

Isso abriu brecha para que outros grupos se empoderassem da palavra “Ciência”, e aproveitando-se da falta de conhecimento da população, criaram movimentos, teorias, cursos e uma indústria inteira que difunde informações que não tem, de fato, nenhuma validação científica. É a chamada pseudo-ciência.

Mas uma coisa esse grupo conseguiu fazer muito melhor do que os “cientistas de verdade”: dialogar com as pessoas, através de uma linguagem mais acessível, mais empática e de fácil entendimento.

Dito isso, levar a Contabilidade como Ciência para a grande massa está exatamente sujeita a esse desafio da comunicação, da linguagem simplificada e do acesso democrático a esse conhecimento.

Por anos a Contabilidade ficou taxada como sendo algo difícil, inútil e chato demais, cheia de sopa de letrinhas e de conceitos que fundem a cabeça de quem mais deveria entender do assunto: os gestores das empresas.

E os culpados disso somos nós mesmos. Nós, contadores, esses seres que “falam difícil e não se entendem entre si”.

A linguagem da Contabilidade não precisa ser difícil. Isso não é prerrogativa para que ela se torne uma ciência.

Ter que ler mais de uma vez o mesmo parágrafo de um CPC não é normal. Interpretar um CPC completo pode até atribuir a você um nível de conhecimento superior aos demais, mas isso só te torna inacessível. Isso não é ciência.

A ciência é democrática. Ela é simples. Aplicável ao cotidiano. E ela definitivamente não é teórica. Ela é baseada em experimentação. Sentida. Vivida.

Se você, como cientista contábil, não consegue aplicar a ciência da Contabilidade de forma a gerar benefício claro ao seu usuário final, seja porque ele não entendeu o que você fez ou falou, seja porque ele não conseguiu enxergar utilidade no que foi feito, então isso é um equívoco.

Para esta próxima década, o nosso desafio é tornar a linguagem da ciência contábil mais democrática e mais dialogável, para que consigamos, de uma vez por todas, evidenciar a sua importância e seu enorme valor para a sociedade.

Conclusão

Acho importante frisar que tudo o que eu disse até aqui é baseado em observação e experiências pessoais, logo não posso afirmar que essas previsões de fato ocorrerão, mas eu apostaria em todas elas.

Ninguém precisa ter uma bola de cristal para ter certeza de que o mercado contábil sofrerá muitas transformações nesta década, assim como passou nos últimos 10 anos.

Em 2011 não se falava em contabilidade online, isso era “assunto futurista”.

E agora, em 2021, sobre esses pontos que eu trouxe e de outros que eu nem citei, o que você também considera “futurista demais”?

Será um prazer para mim poder conversar mais com você sobre isso, então fique à vontade para me mandar uma mensagem ou um e-mail, quero saber sua opinião e sua intuição sobre o futuro do nosso mercado e da nossa tão amada profissão!

Obrigada por ler até aqui!

Um abraço e tamo junto,

Fernanda Rocha
Contadora, Founder & CEO da
Nucont

Para entrar em contato comigo:
- E-mail: fernanda@nucont.com
- WhatsApp: 31 98857–6351
- Instagram: @fernandarocha.csc

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Fernanda Rocha
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Written by Fernanda Rocha

Founder e CEO da Nucont, líder do Movimento Contabilidade Sem Chatice, firme na missão de propagar a Contabilidade Consultiva por todo o Brasil

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